III

– Eu não vou jantar hoje – disse Fábio.

Não entrei no quarto, permaneci observando o meu irmão do corredor. Eu não ia continuar insistindo, só que aquela situação me preocupava. Viver para estudar não é viver, não pra mim.

Entendo que ele decidiu seguir esse caminho e que os meus país apoiavam, mas não existiam limites pra ele. As bolsas debaixo dos seus olhos ficavam cada vez mais inchadas e escuras, a perda de alguns quilos também era visível e o seu temperamento se mostrava cada vez mais instável.

Enquanto ele recitava termos e mais termos enquanto fazia anotações, pude observar a quantidade de livros espalhados encima da sua cama, folhas avulsas com desenhos e esquemas para auxiliar a memorização.

– Tudo bem, só espero que você goste de comer papel – respondi em voz baixa enquanto me dirigia pra sala.

Com certeza, Fábio estava perdendo a sua sanidade.

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II

Eu estava agachado, encostado da parede de um edifício qualquer de uma rua desconhecida. Observando os pedestres passarem, alguns me olhavam de volta, mas eu não fazia questão de focar em seus rostos.

O céu acinzentado anunciava a vinda de chuva e eu torcia pra que ela viesse logo. Parei de observar as pessoas e passei a encarar apenas o concreto rachado da calçada. A primeira gota caiu, mais uma e mais outra. Em poucos instantes, a forte chuva espantava todos os caminhantes que passavam por ali. Eu permaneci no mesmo lugar, não tinha pra onde ir mesmo. Apenas peguei o meu velho guarda-chuva, após abri-lo tentei proteger a minha mochila. A abracei, ela era minha única amiga, um objeto.

Pensei que seria melhor andar pelas ruas em busca de algum lugar mais seco, não me importava comigo, senão com os meus únicos pertences.

Enquanto andava comecei a cantar, para aliviar as dores e lembrar os bons tempos de reconhecimento.

Nada iria calar a minha voz além da morte, talvez não cantasse para ninguém além de Deus. Isso já me bastava.

 

I

Era uma segunda-feira, o melhor dia da semana. Isso soa como um paradoxo? Com certeza.  Mas ele era o motivo da minha alegria. Acordei mais cedo só para que eu tivesse mais tempo de me arrumar adequadamente para a ocasião.

Hoje era o dia.

Vesti o meu uniforme mais limpo, o cheiro de amaciante ainda era perceptível, esperava que ele ainda podesse sentir que ali ainda havia um odor de lavanda. Eu penteava as minhas longas madeixas loiras com delicadeza frente ao espelho. Depois prendi o meu cabelo com um coque alto, deixando à mostra o meu rosto, o mais belo adorno que eu usaria naquele dia seria o meu sorriso. Quase me derreti só de pensar qual seria a sua reação ao me ver assim.

Cheguei ao colégio e antes que o normal ,minha empolgação era visível, poucos alunos ainda tinham chegado, mas alguns funcionários  até me olhavam com um certo estranhamento. 

A carta estava em minhas mãos, não hesitei sequer um momento. Fui em direção à minha sala de aula e mesmo com a porta entreaberta percebi a sua presença: Guilherme. O meu coração bateu mais rápido.

Só que antes de eu bater na porta, pude ouvir um som estranho. Parecia um murmurio, não pude identificar o que estava acontecendo. Antes que eu tomasse uma atitude, uma mulher saiu e quase esbarrou em mim. Entrei na sala preocupada e lá estava ele jogado no chão chorando com a calça desabotoada, quando Guilherme percebeu que eu estava ali, tentou se recompor. Não quis permanecer ali por mais tempo, apenas amassei a carta e joguei no chão e sai correndo dali enquanto as lágrimas caiam incessantemente pelo meu rosto.

 

 

Esse é o meu primeiro post e já vou avisar que postarei eventualmente alguns contos, em sua maioria com temas aleatórios.