V

Quase sem luz, apenas o som dos carros correndo e com isso vinha o barulho das ambulâncias que nessa época do ano já era até comum de se escutar pelas estradas da capital.

Brasília nunca parou de crescer, o ritmo frenético tornou-se algo comum nas principais cidades do Distrito Federal e eu permaneci aqui por tempo indeterminado, mesmo não conseguindo gostar de tudo isto.

Não tinha um assento disponível para mim, porém, não significava que eu pudesse estar desconfortável. A distração era uma grande aliada nos momentos de tédio. A paisagem fazia com que aqueles momentos fossem mais suportáveis, inclusive, observar os carros e as pessoas que tinham dentro de si era uma das melhores cenas que eu contemplava no dia. Famílias, casais e muitos deles que estavam sozinhos, todos e cada um deles, contidos dentro daquelas cabines apresentavam pequenas cenas fascinantes de se “espionar”. Uma família com trigêmeos; um casal a ponto de desenvolver uma DR; uma mulher cantando alto e desafinando, mas a sua dor era maior que a sua vergonha alheia, já diziam que quem canta os seus males espanta – mas ela também devia espantar qualquer um que a visse agindo daquele jeito; entre outras cenas comuns e incríveis ao mesmo tempo.

A minha viagem mental teve uma leve interrupção quando uma moça diante de mim se ofereceu para levar a minha mochila. Fiquei constrangido, ela parecia disposta a facilitar a minha volta para casa, só se o meu orgulho pesasse mais que sua boa vontade. Pensei em negar e ser cavalheiro, só que aquele peso… Aquela oferta irrecusável daria um pequeno alívio às minhas costas. Acabei aceitando.

A senhora de meia idade, que parecia inquieta após desfrutar uma boa soneca, levantousse e saiu do seu lugar apressada e quase que levava a moça junto, certamente ela já tinha perdido a sua parada. A jovem prefeiriu ceder o lado da janela e ela ficou no corredor, o que era uma vitória para mim no meio de um ônibus cheio: ganhei a oportunidade de estudar a paisagem confortávelmente. 

Mas isso acabou sendo um grande inconveniente. Logo depois, pude presenciar um dos piores acidentes que já vi, enquanto o nosso ônibus passava com certa lentidão na via em direção oposta, minha expressão de espanto era a mesma estampada no rosto de cada um dos passageiros. De repente, senti as lágrimas escorrendo pelo meu rosto até a minha barba.

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IV

A dinâmica enquanto desenvolviamos uma discussão ao caminhar de volta pra casa era bem mais interessante em termos de assunto, tudo fluía mais… O que era para ser alegre, ficava mais alegre e o que era pra ser triste, ficava ainda mais triste. Nossos corpos conseguiam se movimentar e ter mais liberdade de expressão. Os passos ficavam mais lentos se tínhamos a necessidade de alongar o nosso tempo juntos ou correr quando o sinal de trânsito estava prestes a fechar.

Só que, ver a cara dele era todo um desafio para mim, a diferença de altura quase sempre me incomodava. Ter que levantar a cabeça para encarar o seu rosto nunca me motivava a saber qual era a sua expressão – e a minha dificuldade de olhar nos olhos das pessoas já era uma mania que eu cultivava há muito tempo – mesmo que eu achasse as suas feições agradáveis de se ver, principalmente o sorriso. Por isso eu gostava de conversar com o Gabriel enquanto estávamos sentados – a limitação de movimentos ainda era um ponto fraco-, e ao olhar para aquele par de olhos eu não conseguia imaginar o que havia detrás de suas olheiras. 

Aos poucos fui descobrindo coisas interessantes sobre ele, mas nem tudo era tão simples como eu poderia imaginar. Depois de ouvir uma parte de sua história pensei que talvez eu entenderia um pouco do pesar que o Gabriel carrega consigo. Não que eu conseguisse sentir o mesmo que ele, só que eu já tinha prometido que praticaria mais esse  “negócio de ser empática”. Tem sido mais doloroso do que eu esperava.

Em ambas as circunstâncias, demostrávamos uma sincronicidade, as vezes, absurda com relação a emoções, manias, forma de encarar experiências, etc. Ainda com nossas diferenças, é claro.

“Obrigada por ser tão paciente”. Sempre quis agradecer a ele… Consegui cultivar sentimentos que nem eu sabia como interpreta-los a pesar do pouco tempo juntos, mesmo não sabendo o que eram. É diferente de “gostar”, uma atração carnal ou qualquer coisa que já tinha ouvido falar. Era especial, era único, era nosso. Poderia ser ágape ou eros? Não sei se o que eu sentia tinha alguma classificação.

III

– Eu não vou jantar hoje – disse Fábio.

Não entrei no quarto, permaneci observando o meu irmão do corredor. Eu não ia continuar insistindo, só que aquela situação me preocupava. Viver para estudar não é viver, não pra mim.

Entendo que ele decidiu seguir esse caminho e que os meus país apoiavam, mas não existiam limites pra ele. As bolsas debaixo dos seus olhos ficavam cada vez mais inchadas e escuras, a perda de alguns quilos também era visível e o seu temperamento se mostrava cada vez mais instável.

Enquanto ele recitava termos e mais termos enquanto fazia anotações, pude observar a quantidade de livros espalhados encima da sua cama, folhas avulsas com desenhos e esquemas para auxiliar a memorização.

– Tudo bem, só espero que você goste de comer papel – respondi em voz baixa enquanto me dirigia pra sala.

Com certeza, Fábio estava perdendo a sua sanidade.

II

Eu estava agachado, encostado da parede de um edifício qualquer de uma rua desconhecida. Observando os pedestres passarem, alguns me olhavam de volta, mas eu não fazia questão de focar em seus rostos.

O céu acinzentado anunciava a vinda de chuva e eu torcia pra que ela viesse logo. Parei de observar as pessoas e passei a encarar apenas o concreto rachado da calçada. A primeira gota caiu, mais uma e mais outra. Em poucos instantes, a forte chuva espantava todos os caminhantes que passavam por ali. Eu permaneci no mesmo lugar, não tinha pra onde ir mesmo. Apenas peguei o meu velho guarda-chuva, após abri-lo tentei proteger a minha mochila. A abracei, ela era minha única amiga, um objeto.

Pensei que seria melhor andar pelas ruas em busca de algum lugar mais seco, não me importava comigo, senão com os meus únicos pertences.

Enquanto andava comecei a cantar, para aliviar as dores e lembrar os bons tempos de reconhecimento.

Nada iria calar a minha voz além da morte, talvez não cantasse para ninguém além de Deus. Isso já me bastava.

 

I

Era uma segunda-feira, o melhor dia da semana. Isso soa como um paradoxo? Com certeza.  Mas ele era o motivo da minha alegria. Acordei mais cedo só para que eu tivesse mais tempo de me arrumar adequadamente para a ocasião.

Hoje era o dia.

Vesti o meu uniforme mais limpo, o cheiro de amaciante ainda era perceptível, esperava que ele ainda podesse sentir que ali ainda havia um odor de lavanda. Eu penteava as minhas longas madeixas loiras com delicadeza frente ao espelho. Depois prendi o meu cabelo com um coque alto, deixando à mostra o meu rosto, o mais belo adorno que eu usaria naquele dia seria o meu sorriso. Quase me derreti só de pensar qual seria a sua reação ao me ver assim.

Cheguei ao colégio e antes que o normal ,minha empolgação era visível, poucos alunos ainda tinham chegado, mas alguns funcionários  até me olhavam com um certo estranhamento. 

A carta estava em minhas mãos, não hesitei sequer um momento. Fui em direção à minha sala de aula e mesmo com a porta entreaberta percebi a sua presença: Guilherme. O meu coração bateu mais rápido.

Só que antes de eu bater na porta, pude ouvir um som estranho. Parecia um murmurio, não pude identificar o que estava acontecendo. Antes que eu tomasse uma atitude, uma mulher saiu e quase esbarrou em mim. Entrei na sala preocupada e lá estava ele jogado no chão chorando com a calça desabotoada, quando Guilherme percebeu que eu estava ali, tentou se recompor. Não quis permanecer ali por mais tempo, apenas amassei a carta e joguei no chão e sai correndo dali enquanto as lágrimas caiam incessantemente pelo meu rosto.

 

 

Esse é o meu primeiro post e já vou avisar que postarei eventualmente alguns contos, em sua maioria com temas aleatórios.